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E o tempo nunca mais foi o mesmo...
...A invenção da Agenda e do Relógio mecânico no século XIII pelos monges beneditinos alterou radicalmente a concepção humana de tempo.

por Jeremy Rifkin

O conceito de tempo mudou sob um aspecto profundo no período que separa o fim da Era Medieval e o inicio da Moderna.

A invenção da Agenda e do Relógio mecânico no século XIII pelos monges beneditinos alterou radicalmente a concepção humana de tempo, representando mais um avanço crítico na estrada rumo a uma economia de mercado e um governo por Estado nação.

Durante a maior parte da história registrada, o calendário dominou as questões humanas. Ele serviu como principal instrumento de controle social, regulando a duração, a seqüência, o ritmo e a velocidade da vida, e coordenando e sincronizando as atividades grupais das culturas. O calendário orienta-se pelo passado. Sua legitimidade repousa na comemoração. As culturas de calendário comemoram muitos arquétipos, lendas antigas, eventos históricos, os feitos heróicos de deuses, as vidas de grandes figuras da história e as flutuações de fenômenos astronômicos e ambientais.

Nessas culturas, o futuro extrai sentido do passado. A humanidade ordena o futuro ressuscitando e honrando continuamente suas experiências passadas.

O Calendário continua a desempenhar um papel importante na cultura contemporânea. Sua relevância política, no entanto, reduziu-se em muito com o surgimento da agenda. A agenda exerce um controle muito maior que o calendário que se distribuem ao longo dos anos, a agenda regula o microtempo- eventos dispostos pelos segundos, minutos e horas do dia.

A agenda busca sua legitimidade no futuro, não no passado.

Nas culturas de agenda, o futuro é dissociado do passado e passa a constituir um domínio temporal apartado e independente. As culturas de agenda não comemoram; elas planejam.

Não estão interessadas em ressuscitar o passado, mas em manipular o futuro. Na nova escala de tempo o passado é meramente um prólogo do futuro. O que conta não é o que se fez ontem, mas o que se pode ser feito amanhã.

O calendário e a agenda diferem num outro aspecto importante. Embora os modernos calendários estejam se tornando cada vez mais secularizados, durante a maior parte de nossa história seu conteúdo social esteve inseparavelmente ligado a seu conteúdo espiritual. Nas tradicionais culturas de calendário, os momentos importantes são sagrados, sendo observados pela comemoração de dias santos especiais. A agenda em contraste, associa-se com a produtividade. Valores sagrados e preocupações espirituais têm pouco ou nenhum papel em sua formulação. O tempo, no novo esquema das coisas, é um instrumento para assegurar a produtividade. Ele é destituído de todo conteúdo sacro remanescente e convertido em pura utilidade.

George Woodcock observou: “É uma circunstância freqüente na história que uma cultura ou civilização desenvolva o instrumento que será usado posteriormente em sua própria destruição.”

A agenda, mais do qualquer outra força, é responsável por solapar a idéia de um tempo sagrado e espiritual e introduzir a noção de tempo secular. Escusado é dizer que os monges beneditinos em momento algum pretenderam que a agenda fosse utilizada com quaisquer fins além da melhor organização do tempo do indíviduo na Terra em preparação para a libertação eterna. Mal suspeitavam eles que ela se tornaria a principal ferramenta do comércio moderno.

A ordem dos beneditinos foi fundada no século VI. Ela diferia, num aspecto importante, de outras ordens da Igreja. São Benedito enfatiza a atividade a todo o momento. Sua regra cardeal, “ o ócio é o inimigo da alma”, tornou-se o lema da ordem. Os beneditinos empenhavam-se em atividades constantes, como forma de penitência e como meio de assegurar sua salvação eterna. São Benedito alertava os membros de sua ordem que “para conseguirmos escapar as dores do inferno e conquistar a vida eterna, devemos nos empenhar-enquanto houver tempo-em fazer agora o que nos possa valer na eternidade.”

Como a classe mercadante que seguiria seus passos, os beneditinos viam o tempo como um recurso sagrado.

Para eles, contudo, o tempo era essencial por pertencer a Deus; pertencendo a Deus, eles julgavam ser seu dever sagrado utiliza-lo o mais plenamente possível para servir à glória divina. Com esse objetivo, os beneditinos organizavam cada momento do dia em atividades formais.Havia um tempo específico para orar, para comer, para banhar-se, para trabalhar, para ler, para refletir e para dormir. Como meio de garantir a regularidade e a coesão grupal, eles restabeleceram a idéia romana das horas, um conceito temporal pouco usado pelo restante da sociedade medieval. Toda atividade devia ocorrer numa hora específica do dia. Veja as seguintes instruções da Regra de São Benedito:

Os irmãos(...) devem ocupar-se nas horas estabelecidas em trabalhos manuais, como noutras horas em leituras sagradas. Com vistas a esse fim, acreditamos que os momentos de cada dia devem ser determinados da seguinte maneira(...) Os irmãos devem iniciar o trabalho pela manhã e, desde a primeira hora até a quarta, cumprir as tarefas que devem ser feitas. Da quarta até a sexta hora, que se dediquem à leitura. (...)

Para garantir que todos iniciassem as atividades simultaneamente no momento prescrito, os beneditinos usavam sinos. Sinos repicavam, reboavam e tiniam o dia todo, conclamando os monges às rotinas estabelecidas. Os sinos mais importantes eram os que anunciavam às oito horas canônicas em que os monges celebravam os Ofícios Divinos.

Os beneditinos organizavam as semanas e estações com a mesma regularidade temporal com que organizavam os dias. Mesmo atividades mundanas como raspar a cabeça, fazer sangrias e encher colchões ocorriam em momentos pré-fixados no transcurso do ano.

Os beneditinos criaram mais do que uma nova organização temporal ao introduzirem a “agenda”. Eviatar Zerubavel observa sabiamente que ao prescreverem horários para atividades específicas e exigirem a estrita observância de tais atividades no momento apropriado, os beneditinos “ajudaram a conferir à agência humana os batimentos e ritmos coletivos regulares da máquina.”

O cientista político Reinhard Bendix referiu-se ao monge beneditino como “o primeiro profissional da civilização ocidental.”

Para assegurarem o devido cumprimento da agenda prescrita, os beneditinos desenvolveram uma ferramenta que poderia lhes proporcionar maior precisão na mensuração do tempo do que a dependência em sinos e sineiros.

Inventaram o relógio mecânico.

Lewis Mumford observou certa vez que “o relógio, e não a máquina a vapor, é o instrumento-chave da Era Moderna.” (...) O relógio permitiu ao clero padronizar a duração das horas.Estabelecendo uma unidade uniforme de duração, os monges conseguiram agendar a seqüência de atividades com maior precisão e sincronizar os esforços em grupo com maior confiabilidade.

Não tardou, contudo, para que a notícia da nova maravilha começasse a se difundir. No final do século XV, o relógio mecânico abrira caminho para fora do claustro e tornara-se um elemento regular na nova paisagem urbana. Relógios gigantescos tornaram-se a peça central da vida citadina. Erigidos em meio a praça da cidade, eles substituíam o sino da igreja como ponto de encontro e de referência para coordenar as complexas interações da existência urbana. (...)

Os primeiros relógios não tinham ponteiros. Simplesmente soavam um sino a cada hora. A palavra inglesa clock vem com efeito do médio holandês clocke, que significa “sino”. No século XVI, os relógios bimbalhavam quartos de horas, e alguns eram fabricados com ponteiros para assinalar o transcorrer de cada hora. Em meados do século XVII, o pêndulo foi inventado, proporcionando um mecanismo cronométrico muito mais exato e confiável. Pouco tempo depois surgiu o ponteiro dos minutos. O segundo ponteiro não se estreou senão no início do século XVIII, quando foi usado pela primeira vez por astrônomos, navegadores e médicos para registrar medidas mais acuradas.

A idéia de organizar o tempo em unidades padronizadas de horas, minutos e segundos teria parecido estranha, e mesmo macabra, a um servo camponês do período medieval. O dia dividia-se em três setores: nascer do sol, meio dia e pôr do sol.

(...) “Por sua natureza essencial”, observa Lewis Mumford, o relógio “dissociou o tempo dos eventos humanos”. Também é verdade como sugere o historiador David Landes, da Universidade de Harvard, “que o relógio dissociou os eventos humanos da natureza”.

O tempo que sempre fora medido com relação a fenômenos físicos e bióticos, ao nascer e pôr-do-sol e à mudança de estações, tornou-se a partir de então uma questão de puro mecanismo. O novo tempo substituía a qualidade pela quantidade, e o pulso rítmico do mundo natural pelo automatismo.

(...) A emergente classe burguesa dos mercadores acolheu avidamente o relógio mecânico. Ficou logo evidente que as atividades cada vez mais complexas da vida comercial e urbana exigiam um método de regulagem e sincronização que só o relógio podia proporcionar. (...) Ao passo que nos ofícios artesanais e na agricultura os trabalhadores haviam definido o ritmo das atividades, no novo sistema fabril, o maquinário ditava a velocidade. Tal velocidade era incessante, impiedosa e exaustiva. O modo de produção industrial era, acima de tudo metódico. Seu ritmo espelhava o do relógio.

(...) Não foi somente nas fábricas que o relógio desempenhou um novo e importante papel. A classe burguesa descobriu-lhe usos em praticamente todo aspecto de sua vida diária.(...) A burguesia introduziu o relógio em suas casas, escolas, clubes e escritórios.

(...) Ser “regular como um relógio” tornou-se o maior valor da nova era industrial. Sem relógio, a vida industrial não teria sido possível. Ele condicionou a mente humana a conceber o tempo como externo, autônomo, contínuo, rigoroso, quantitativo e divisível. Nisso, preparou o caminho para um modo de produção que funcionaria segundo o mesmo conjunto de padrões temporais.

A metamorfose da natureza de criação de Deus em recurso do homem, a mudança nas leis sobre a usura, a transição do preço justo para o preço de mercado, o nascimento da economia monetária e a introdução da agenda e do relógio influenciaram profundamente em seu conjunto a percepção européia de tempo e espaço.

Fonte: Livro" O sonho Europeu" M. Books - Autor: Jeremy Rifkin

 

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